BAIONENSES DEIXARAM AS SUAS VIDAS NA CIDADE DO PORTO PARA CUIDAREM DOS PAIS

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A vida é feita de fases. De bebé a criança, de criança a jovem, de jovem a adulto, de adulto a idoso. Durante o nosso crescimento contámos com o apoio dos nossos pais, são eles que nos criam, que nos ajudam em todos os momentos da nossa vida até não conseguirem mais, e é aí que os papéis se revertem e nós tornámo-nos “pais” dos nossos pais.

Quando chega a essa altura, é a hora de retribuir o amor e o carinho, é a altura de dar o “colinho” que nos foi dado enquanto crianças, retribuir sem pensar duas vezes, porque são os nossos pais e um dia eles fizeram tudo por nós, portanto é a nossa vez de fazer tudo por eles.

O Jornal O Comércio de Baião foi ao encontro de duas baionenses que deixaram as suas vidas na cidade do Porto para trás para regressarem a Baião e retribuírem todo o amor e carinho que os seus pais lhe deram em crianças.

Glória Borges tinha 36 anos quando regressou a Teixeiró, na União de Freguesias da Teixeira e Teixeiró para vir tomar conta dos seus pais. Agora, passados quatros anos, conta-nos como foi deixar a cidade do Porto e adaptação à sua nova vida, aqui no concelho de Baião.

A baionense regressou à sua terra mãe quando a saúde dos seus pais começou a piorar.

“O meu pai sofreu uma trombose nas vistas, também já tem dificuldades a andar sozinho por causa da coluna. A minha mãe em 2015 foi diagnosticada com demência, no início da doença ainda conseguia fazia muita coisa sozinha, mas conforme foi evoluindo, eu e os irmãos percebemos que eles precisavam de alguém diariamente com eles, então aqui estou eu”, começou por explicar.

O casal baionense, segundo a filha Glória, já contava com a ajuda da OBER (Obra do Bem Estar Rural de Baião), que garantiam as refeições. Para além disso, a entidade ajudava ainda o casal na sua higiene pessoal. No entanto, após a situação médica dos pais começar a piorar, e a ida para um lar não ser opção, Glória veio viver com os pais para tomar conta deles 24h sob 24h todos os dias da semana.

“Os meus pais nunca quiseram ir para um lar e como eu tinha a hipótese de poder voltar para cá, acabou por nem ser uma opção. Os meus irmãos na altura até queriam que eles fossem para o Porto em vez de vir eu para cá, mas não achei que fosse boa ideia. Os meus pais tinham casa, não era preciso pagar renda, e para este tipo de doenças, como a da minha mãe, é melhor estar no cantinho deles, então decidi vir eu para cá”, realçou.

A baionense, antes do seu regresso a Baião, estava a trabalhar na cidade do Porto, numa casa onde tomava conta de crianças, e admitiu que a mudança foi “radical”.

“Como é óbvio não foi fácil. Eu tinha o meu cantinho, tinha o meu cachorro. Foi bastante inesperado, nunca pensei que isto fosse acontecer, pensei sempre que eles se iam amparar um ao outro. Na verdade é uma questão de hábito, e apesar de ser difícil, acaba por valer a pena”, relatou.

Já passaram quatro anos desde que Glória tomou a decisão que deu a reviravolta à sua vida e recordou a fase da pandemia, revelando que foi uma altura “bastante complicada” e que o facto de não ter a visita dos irmãos a fez sentir sozinha.

“A fase da pandemia foi bastante complicada, foram três/quatro meses em que estive aqui sempre sozinha. O meu pai sofre de problemas pulmonares, então o médico de família disse para não deixar as minhas irmãs visitarem, pois como elas vivem na cidade, andam no meio da confusão, era perigoso. Para além disso, a doença da minha mãe também teve uma fase mais complicada. Foi muito difícil”, admitiu.

Com a falta das visitas dos irmãos, Glória sentiu que toda a sua energia positiva, que tenta transmitir todos os dias aos seus pais, estava a começar a desaparecer. Por causa dessa razão, a baionense teve a necessidade de encontrar algo onde pudesse ir buscar forças tanto psicológicas como físicas.

“Eu tive a necessidade de fazer algo por mim, sentia a nível físico e emocional um desgaste, e perguntava a mim mesma muitas vezes: «Eu cuido deles, e de mim quem cuida?». Foi então que decidi começar a fazer caminhadas e percebi que, apesar de a minha vida agora ser limitada, eu não preciso de muito, basta umas sapatilhas e um fato de treino e estou feliz”, salientou.

Glória Borges abdicou de uma vida na cidade para regressar à aldeia que a viu nascer e crescer, no entanto garante que, apesar de uns dias mais difíceis que os outros, é bastante gratificante no momento em que acorda e vê os sorrisos dos seus pais.

“Há dias bons, há dias maus. Há dias em é preciso ter muita força, mas é bastante gratificante acordar com um «Bom dia filha», em que eles sorriem para mim, e é nesse momento que eu sei que vale a pena”, descreveu emocionada.

No que diz respeito aos apoios que o casal tem direito, a baionense referiu a OBER, já mencionada anteriormente, que lhes garantia as refeições e a higiene pessoal. Para além disso, a filha do casal pediu na sua junta de freguesia um apoio para uma cama articulada e uma cadeira para poder mover a mãe.

“Os meus pais vivem das reformas, que não são muito altas, e na altura quando a minha mãe piorou, pedi apoio para uma cama articulada e uma cadeira, algo que a junta me ajudou a conseguir. Também já pedi o apoio do estado para o cuidador informal, mas agora com esta situação do chumbo de orçamento de estado não vai ser fácil. É como digo, as reformas não são muito altas, eu tento gerir da melhor forma, portanto qualquer apoio que eu tenha direito, eu aceito”, referiu.

“De velho se torna a menino” é como o antigo ditado diz, e a verdade é que em meninos todos nós gostamos de mimo, carinho, amor, algo que Glória transmite todos os dias aos seus pais e que garante ser o melhor conselho a todos os que cuidam dos seus, tal como ela.

“Não é preciso muito, é preciso tratar com carinho, estar aqui, transmitir o nosso amor para eles. É muito gratificante ouvir dizer que eles estão cá por causa do amor que lhes transmito. É preciso muita força de vontade, coragem e muita garra. Os dias não são sempre bons, mas eu tenho muita alegria em mim e passo isso para eles, a minha energia positiva, o meu amor, o meu carinho, tudo o que posso para que eles andem aqui firmes. Eu só não lhes consigo dar o «colinho» como eles me deram a mim, e garanto que, enquanto eu tiver forças faço tudo por eles, tudo”, concluiu emocionada.

Tal como Glória Borges, Maria Graça Pereira também “largou” a sua vida na cidade do Porto, sem pensar duas vezes, para vir ao encontro da sua mãe, quando a sua saúde começou a piorar.

A baionense voltou à Teixeira, na União de Freguesias de Teixeira e Teixeiró, em março de 2018, algo que já tinha decidido, desde que a sua mãe partiu a perna em outubro de 2017.

“Desde o dia 21 de outubro de 2017 que cheguei aqui e vi a minha mãe com a perna partida, que decidi voltar para cá, nem pensei duas vezes. O médico desde sempre me disse que se um dia a minha mãe partisse uma perna nunca mais ia andar, devido à osteoporose e também a Parkinson”, começou por contar.

A decisão de Maria Graça foi definitiva após o percurso da sua mãe em diferentes hospitais, que na opinião da baionense não eram ideais.

“A minha mãe esteve internada em Penafiel muito tempo, e os médicos até acreditavam que ela voltasse a andar, no entanto a cabeça dela não deixava, como é hipocondríaca tinha medo. Entretanto foi para o Hospital de Paredes, mais tarde foi para Murça, onde me vim a aperceber que as condições não eram as melhores. Por fim esteve em Lousada, onde era bem tratada, mas não comia quase nada”, explicou.

Maria Graça, tal como Glória Borges trabalhava numa casa na cidade do Porto, onde tomava conta de uma menina com 95% de incapacidade e revelou que nunca pensou que ia deixar a sua patroa a chorar.

“Eu estava a trabalhar, mas era tratada como uma princesa, tinha comida, cama e roupa lavada, era mesmo muito bem tratada. Quando vim embora a minha patroa ficou a chorar, porque realmente tínhamos uma boa relação”, realçou.

Com as boas condições que tinha no trabalho, a baionense admite que tomar conta da sua mãe em nada se compara, mas que “não existe um momento de arrependimento, pois é a sua mãe”.

“Nunca pensei duas vezes, não me arrependo de nada, porque os meus pais nunca pensaram duas vezes quando eu precisei deles. Quando fui abandonada pelo meu ex-marido, com as minhas duas filhas, que na altura tinham seis e nove anos, eles ajudaram-me em tudo”, admitiu.

Tal como a sua vizinha de Teixeiró, Maria Graça concorda que a mudança foi bastante “radical”, mas que já estava habituada à vida numa aldeia.

“Foi uma mudança grande, mas por outro lado, eu fui para lá com 43 anos, ou seja, já estava habituada a estar aqui, e a verdade é que eu gosto, gosto da aldeia, gosto de mexer na terra, de andar nos campos, de cuidar dos animais”, enumerou.

Apesar de gostar deste meio, a baionense afirmou que nem tudo é fácil, e existiram coisas menos boas na mudança.

“Eu deixei o meu trabalho, abandonei tudo para vir para a beira deles, deixei de ser independente para estar a 100% com eles. Não tenho férias, não tenho subsídio de férias. É de segunda-feira a domingo, sete dias por semana, 365 dias por ano. Nunca mais fui ao Porto, não festejo anos dos meus netos a não ser que eles venham aqui, porque eu não posso sair para lado nenhum. Não existem regalias nesse sentido, mas a minha maior regalia é estar aqui a beira deles e vê-los bem, e por esse lado é muito bom”, confirmou.

Maria Graça está a tempo inteiro com os seus pais, mas sempre que necessário conta com o apoio dos seus irmãos e também vizinhos.

“Sempre que é preciso é claro que os meus irmãos me ajudam, por exemplo quando eu preciso de sair, ou outras coisas. Já aconteceu, eu e a minha mãe cairmos e eu ter que ligar a pedir ajuda porque não conseguia levantá-la sozinha”, recordou.

No que diz respeito aos apoios, a baionense vive uma situação semelhante à de Glória, gerindo as reformas dos seus pais para poderem viver os três.

“Vivemos os três com as reformas deles. Em relação à ajuda do estado, o apoio do cuidador informal, quando me fui informar disseram-me que estava a ser distribuído por distritos e depois por concelhos, para eu tentar passado um ano, mas depois apareceu a pandemia e era muito difícil conseguir marcar na Segurança Social. Agora o chumbo do orçamento de estado também vai atrasar tudo, então apenas conto com o apoio dos meus irmãos”, referiu.

Nem todas as pessoas têm possibilidades para largar as suas vidas para tomarem conta dos seus. Nem todas as pessoas conseguem passar e aceitar a mudança e Maria Graça disse que quando tomou a sua decisão, não pensou com a cabeça, mas sim com o coração.

“Não foi fácil, nem todos os dias são bons, mas são os meus pais, eles cuidaram de mim sem pensar duas vezes, eu também cuido deles sem pensar duas vezes. É uma mudança que poucos querem, e quando têm que tomar uma decisão pensam com a cabeça, mas eu pensei com o coração. Há muita gente que pensa com a cabeça e pensa neles, mas eu não pensei em mim, pensei na minha mãe e no meu pai. Valeu a pena eu ter sacrificado a minha vida para vir olhar por eles, é gratificante, é muito gratificante”, concluiu comovida.

Mariana Carneiro

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