INAUGURADO O NÚCLEO LUÍS SANTOS FERRO NA FUNDAÇÃO EÇA DE QUEIROZ A MAIS IMPORTANTE BIBLIOTECA QUEIROSIANA DO PAÍS

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Na tarde do passado dia 12, deu-se a cerimónia de inauguração do Núcleo Luís Santos Ferro, na Fundação Eça de Queiroz, que a partir desse dia ficou dotada de um novo e importante Pólo, com a mais significativa biblioteca queirosiana do país.

Este espaço estará incluído na visita à Casa de Tormes, mas, para além disso, o acervo estará também disponível para consulta.

Como foi referido pelos ilustres oradores, na cerimónia que decorreu ao ar livre no átrio da Fundação, Luís Santos Ferro, fazia nesse dia 82 anos, engenheiro de formação, melómano exímio, dedicou a vida ao estudo de Eça de Queiroz, sendo autor de diversos artigos sobre o tema. A paixão duradoura por Eça levou-o a reunir as primeiras edições, bem como todas as publicações em vida do autor de Os Maias, além de manuscritos, revistas, estudos académicos, opúsculos, traduções, curiosidades bibliográficas, fotografias, documentos, objetos artísticos, etc.

Trata-se de um rico acervo distribuído por 35 metros lineares em mais de mil entradas bibliográficas, não contando com os periódicos e demais monografias e recortes. Aquando da sua morte, em janeiro de 2020, a família não quis dividir uma queirosiana que foi pensada como um todo e que configura o projeto de uma vida, tendo-a doado à Fundação Eça de Queiroz.

 

O Núcleo Luís Santos Ferro, ficou instalado numa das salas de Tormes, ao lado do quarto que abriga os objetos pessoais dos aposentos do próprio escritor.

A cerimónia contou com várias individualidades vindas de diversos pontos do país, sendo de destacar a presença do presidente da Assembleia da República, Ferro Rodrigues, primo do benemérito, Luís Santos Ferro.

O presidente da Câmara Municipal de Baião, iniciou a sessão, começando a sua intervenção por dizer “Gostaria de vos dar as boas vindas a Baião e com a permissão do Dr. Afonso Cabral, dar-vos também as boas vindas a esta casa”.

De seguida o autarca referiu que, a Fundação Eça de Queiroz, é um dos pilares estratégicos de vertente cultural e turística que a autarquia tem levado a cabo. Não esqueceu que a Fundação “foi uma obra visionária com muita teimosia, persistência conduzida por uma mulher que percebeu a responsabilidade que a família do grande escritor Eça de Queirós tinha na perpetuação do seu nome e na responsabilidade de facultar e estabelecer a ciência e a cultura. Falo da D. Maria da Graça, em todos os sentidos da palavra, a alma desta casa e que, estaria profundamente orgulhosa e honrada por receber este núcleo bibliográfico no servo da fundação”.

Para Paulo Pereira, “A Fundação Eça de Queiroz, é uma das joias da coroa de Baião”.

Também a rica e saborosa gastronomia baionense que encantou Eça e Jacinto e que a eternizou na sua obra A Cidade e as Serras, não passou em claro, sem ser referida pelo presidente, bem como os elogios tecidos a toda a obra de Eça de Queiroz.

Lembrou ainda para além de outras iniciativas, o projeto que o Município tem vindo a desenvolver há alguns anos, na versão para cinema da obra ‘’A Cidade e as Serras’’ no qual deposita as melhores expetativas.

Referindo-se ao Núcleo agora inaugurado, considerou que “Estes documentos serão colocados a disposição dos Queirosianos e demais investigadores, constituindo mais um importante contributo académico e científico, que valorizará não só o escritor, mas também a Fundação como farol dos estudos sobre Eça de Queiroz e a memória, já agora, do engenheiro Luís Santos Ferro”.

Por último, Paulo Pereira, dirigiu umas sentidas e reconhecidas palavras à família do engenheiro Luís Santos Ferro, alguns deles presentes no ato, pela “doação integral do acervo desse amante e reconhecedor da obra de Eça. Nenhuma palavra de penhor ou de agradecimento traduzirá a gratidão que Baião manifesta à família, o tão generoso contributo pelo reconhecimento, não apenas pelo escritor ou homem, mas também pelo período histórico, socioeconómico de enorme importância para o país e para a história contemporânea. À Fundação Eça de Queirós, a garantia de que conta hoje, como sempre, com a Câmara Municipal de Baião, no projeto de desenvolvimento cultural e turístico que nos une, num objetivo comum, o de levar e revelar a obra de Eça de Queiroz a todos, um escritor que era património da humanidade”, concluiu assim o edil Baionense a sua intervenção.

De seguida, Luís António Santos Ferro, familiar de Luís Santos Ferro, usou da palavra em nome da família do benemérito. Iniciou o seu discurso, cumprimentando todos os presentes na cerimónia, informando que Luís Eduardo Oliveira Santos Ferro, completaria nesse dia 12 de julho, 82 anos de idade.

Recordou aos amigos e familiares ali reunidos, que Luís Santos Ferro os tinha deixado inesperadamente há quase ano e meio “A sua súbita partida privou-nos de tudo o que a riqueza da sua presença insubstituível nos habituara a dar por adquirido”.

Lembrou alguns dos valores humanos que o caracterizavam, nomeadamente, o interesse que desde muito cedo manifestou pela arte e pela cultura em geral, traduzido de forma mais intensa, embora não explosiva, nos domínios da música erudita, em particular a ópera, e dos estudos Queirosianos. “Eça de Queiroz constituiu para Luís Santos Ferro um fascínio permanente de que resultou riquíssimo espólio queirosiano que reuniu ao longo da vida”.

Na ausência de disposições testamentárias a respeito do espólio, mencionou que “a questão constituiu desde logo uma das principais preocupações dos herdeiros. Tendo sido pacifica entre nós, a ideia de doar esse espolio, a uma instituição que fosse capaz de preservar catalogar e disponibilizar a investigação, exaltando ao mesmo tempo por essa via a memória do nosso familiar e amigo e a faceta Queirosiana“. Disse também que nesse sentido, a família assumiu a fundação Eça de Queiroz como beneficiária da doação, tendo sido vários os fatores que contribuíram para essa preferência “por um lado a própria vocação da Fundação Eça de Queirós, por outro a consciência da proximidade, de quase 60 anos, que havia unido Luís Santos Ferro à Casa de Tormes”, sublinhou Luís Ferro.

Revelou que em 1961, teria o seu familiar 22 anos de idade, quando fez a sua primeira visita à casa onde vivia a filha do escritor, D. Maria Eça de Queiroz de Castro e que, desde então, a sua frequência em Tormes começou a ser regular, acompanhada com abundante troca de correspondência, até ao falecimento da D. Maria Eça, em 1970. Posteriormente Luís Santo Ferro acompanhou com empenho o projeto dos herdeiros a criar a fundação, concretizada em 1990, tendo mantido a prática de passar todos os anos uma semana de férias em Tormes, ate ao falecimento da sua fundadora e presidente vitalícia, D. Maria da Graça Salema de Castro. Luís Ferro, fez ainda um resumo dos passos dados pela família para a doação, desde o início até ao fim de todo o processo, agradeceu em seu nome e dos demais doadores à Fundação Eça de Queiroz e a todas as entidades que com ela colaboraram a concretização do Núcleo Luís Santos Ferro e congratulou-se por através da sua criação, se preservar e disponibilizar a investigação do espólio queirosiano “que o nosso familiar e amigo cuidadosamente reuniu enquanto viveu, com seriedade e atenção minuciosa que o caracterizavam nas tarefas em que se entregava”.

Terminou a sua intervenção afirmando “Resta aos herdeiros agradecer sensibilizados a vossa presença nesta cerimónia em que, permitam-me voltar a recorda-lo, a par da inauguração do Núcleo Luís Santos Ferro, celebramos o octogésimo segundo aniversário de nascimento”.

A encerrar usou da palavra o presidente da Fundação, Afonso Eça de Queiroz Cabral, que começou também por dar as boas vindas aos presentes, dizendo “sejam bem-vindos nesta vossa casa. Hoje é um dia de grande alegria, é um dia em que a cultura se mostra viva e em ação através de três dimensões que se entrecruzaram tecendo uma tapeçaria que as transcende e que hoje inauguramos com o nome, Núcleo Luís Santos Ferro”.

Continuou enumerando as dimensões referidas “A primeira dimensão cultural é o amor, podia dizer paixão, o amor de um queirosiano de cultura multifacetada, que ao longo de toda a sua vida, recolheu tudo o que Eça de Queiroz editou em primeira edição e tudo o que foi escrito e editado sobre ele. Desde o mistério da estrada de Sintra, em folhetim do diário de notícias, ate ao recorte de jornal sobre a inauguração da última exposição Gulbenkian em 2018, na passagem dos 130 anos sobre a edição dos Maias. A segunda dimensão cultural é a família. A família Ferro que soube funcionar, e digo isto porque há muitas famílias que infelizmente não funcionam, ou funcionam mal. A família Ferro, soube por amizade pelo primo, acima de tudo, recusando destruir a construção da sua vida. A terceira dimensão cultural resta a Fundação, que há mais de 30 anos, não tem outro propósito que o de perpetuar a memoria de Eça de Queiroz e da sua obra”.

Afonso Cabral, disse ter conhecido pessoalmente Luís Santos Ferro, há cerca de 10 anos, descrevendo locais e recordando momentos vividos “Era muito fácil gostar-se dele. Talvez pela sua formação em engenharia química, o seu rigor, o seu método de ordem, todos os documentos queirosianos estão extraordinários. Temos cópias, certamente rascunhos, das cartas manuscritas que ele ao longo dos anos escreveu para a filha de Eça, a minha tia Maria. E por esta razão descobrimos, um facto muito curioso e interessante. Um manuscrito em estado impecável foi-lhe oferecido pelo filho de Eça de Queirós, o meu tio António em 1961, tinha ele 22 anos. A carta para António Eça espelha bem a sua paixão queirosiana, o seu entusiamo de 22 anos e a sua educação”.

Encerrou a sessão com as seguintes palavras “resta-me reiterar o nosso maior agradecimento à família Ferro, pela consciência que depositou nesta Fundação para guardar memória queirosiana do seu primo Luís Santos Ferro. Nós, tudo faremos para perpetuar o espólio de Luís Santos Ferro, que muito fez por Eça de Queiroz”.

Seguiu-se uma visita guiada à Fundação e ao Núcleo Luís Santos Ferro, agora criado e à disposição dos visitantes e estudiosos do escritor.

A inauguração encerrou com um Verde Tormes, no jardim do restaurante com o mesmo nome, ao lado da Fundação.

 

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